23/09/2011

do lugar do fora ao fora do lugar

Existe um planeta muito distante daqui. É um planeta especial pois é composto por um só oceano. Neste oceano vivem essencialmente dois tipos de criaturas. Aquelas que vivem à tona da água e aquelas que vivem nas profundezas do oceano. É muito engraçado reparar nas diferenças que marcam estes dois tipos de ser. A superfície é inundada de luz. As criaturas que aqui vivem possuem olhos e vêem-se mutuamente. Talvez por se verem estes seres são muito mais coloridos. Mostram-se muito mais. São exuberantes, exibem-se constantemente. Pelo o contrário os organismos das profundidades não vêem, mas em contrapartida sentem muito mais. Comunicam de uma forma muito mais intensa que os organismos que habitam a superfície. Este mentem constantemente. Produzem cor para disfarçar os cinzentos que os dominam. Exibem-se para se fazer notar, gostam de se fazer notar. Os habitantes das profundezas são discretos, a maior parte do tempo estão sozinhos. Quando se encontram a linguagem é medida, gostam de saber como é o outro, gostam de aprender com o outro, o outro é importante. As criaturas da superfície abominam os seus parentes que moram lá em baixo. Mas algumas vezes acontecem coisas interessantes. Por vezes uma das criaturas da superfície aventuram-se e mergulham até lá baixo. Nas maior parte das vezes voltam depressa para cima completamente atemorizadas. De quando em vez há uma que resiste ao medo e fica lá em baixo. Confronta-se consigo própria. Abre-se aos outros e descobre que havia muito mais em si que aquilo que pensava. As criaturas lá de baixo são assim. São feias e monstruosas, mas sabem do que são feitas.

da infância, em partes

Eu sempre tive vontade de viver o inaudito. Meu tio falava que, para se viver assim, era necessário ser poeta. Mas eu não queria ser esse negócio chamado poeta, essa palavra breve, como piscar de olhos, bico de coruja. Continuei o sonho de ninguém, a viver como todos. Mas eu não me contentava com o já sabido, e divagava só para mim: por que a terra está em baixo e o céu lá em cima? por que eu não sou “não sou”, eu não posso ser o que não sou?
por que o vento não cansa de correr? e por que eu, que respiro, canso; eu, que respiro o vento que não cansa?

Minha história não foi mais bonita que a de Robson Crusoé, porque eu aprendi a sonhar como ninguém e a viver como todos.

19/04/2011

SOBRE POETAS E PESCADORES

A diferença entre um poeta
E um pescador é o azul e o branco.

O resto são similitudes:
Porque ambos fantasiam suas histórias.
Ambos navegam no infinito
E extraem do infinito seu alimento
E o alimento dos outros.
E que ambos sabem que toda vez
Que navegam no infinito
Podem nunca mais voltar.
E que estar lá é mais que um risco,
É uma aventura.
É mais que um prazer, é uma necessidade:
É sua vida.

Para o pescador, o mar é como papel em branco;
E para o poeta, o papel em branco é como um mar...

Porque no mar, tudo se imagina.
Tudo se espera e se descobre.
E no papel em branco, tudo também se imagina,
Se espera e se descobre...

E no dia em que o poeta tornar-se também um pescador
E o pescador tornar-se também um poeta
Tudo será azul e branco, como a paz.
E os homens jamais precisarão pescar com iscas e anzóis...

24/03/2011

59,7%

Sinto que a vida nunca te sorriu,
Nas poucas vezes que passei por ti
Estavas sempre sentado neste mesmo banco,
A qualquer hora do dia,
À espera de uma outra vida que nunca chega.


Invejo-te a capacidade de fazer parar o tempo
Esquecendo que ele passa.


Conservas esta figura altiva de senhor nobre,
Quem sabe, um dia fostes.


Tentei seguir o teu olhar, mas perdi-me...
Fico sempre à espera de um gesto teu
Um olhar, um talvez...
De um nada que nunca acontece.
Aprendestes a ignorar-nos os passos,
Os sons, as palavras e até mesmo os olhares.


Nem sei dizer-te do meu olhar,
Um misto de inveja e tristeza...
Uma curiosidade de saber a tua história,
Os sonhos que nunca realizaste,
O amor que sentiste,
A calçada que andaste,
Os muros que ergueste...


E temo um engano.


Quantos olhares se perderam em ti?
Quantos olhares perdeste em nós?
Quantos de nós nos enganamos?
Quantos de nós queres que se enganem?

04/03/2011

98, 8%

...


 esquecer de falar 
e falar é puxar do fundo da palavra oesquecimento 

24/02/2011

18,3%

...


/encontro livros em olhares/







olho seus capítulos e em seus cílios afetos capilares/








que vira a página a cada piscadela/onde leio, leitor de outdoors à 200km/h




pe
da
ços 


de 


você.

23/02/2011

todos os dias ela coloca um pouco mais de irrealidade no café.

15/02/2011

flor: outro nome

inférteis grãos de lírios:
mariscar no seco infértil.


onde palavras são flores
e flores, nas palavras, fezes.


plantar fezes, colher flores
a saciar o antófago sentimental.

(que come flores que são fezes
e digere versos sentimentais)




flores que são poesia
fezes seu advento: florir fezes.   

25/01/2011

# rosto zero



qual laço prende as palavras às coisas
que traço representando situações amorfas
- como sentar sobre os próprios dentes
como morder nossa própria bunda -
não exilam nós ausentes, redes armadas
em artérias de corpor ao avesso,
coisas não ditas, que só por nós saberemos?

20/01/2011

dentro de mim qualquer coisa é fora

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e há arames farpados que protegem
o meu não-lugar do mundo.


[...]